O ecossistema de criptomoedas do Irã se aproxima de uma avaliação de 8 bilhões de dólares, impulsionado por uma complexa dinâmica de sanções econômicas, instabilidade da moeda local e o uso crescente por parte da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) para evadir restrições internacionais. Uma recente análise da Chainalysis aponta que o volume de retiradas de Bitcoin disparou durante períodos de protestos no país, evidenciando o papel multifacetado dos ativos digitais.

Em 2025, o ecossistema cripto iraniano alcançou mais de 7,78 bilhões de dólares, apresentando um crescimento notavelmente mais rápido em comparação com o ano anterior, conforme revelado pela Chainalysis. Este cenário sublinha como as criptomoedas se tornaram uma tábua de salvação financeira tanto para o regime quanto para a população, que busca alternativas em um ambiente econômico desafiador.

As sanções impostas por potências ocidentais têm estrangulado as vias financeiras tradicionais do Irã, levando tanto entidades estatais quanto cidadãos comuns a buscar soluções fora do sistema bancário convencional. A desvalorização acentuada do rial iraniano, que perdeu cerca de 90% de seu valor desde 2018 e 37% apenas em 2024, intensifica a busca por ativos digitais como reserva de valor e meio para transações internacionais.

A expansão da Guarda Revolucionária no mercado cripto

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) tem explorado ativamente os ativos digitais para financiar suas operações e contornar as sanções econômicas globais. Relatórios da TRM Labs indicam que a IRGC movimentou aproximadamente 1 bilhão de dólares por meio de duas exchanges de criptomoedas registradas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion, desde 2023. Essas plataformas facilitaram transações significativas, principalmente utilizando a stablecoin Tether (USDT) na rede Tron.

A atividade ligada à IRGC nesses serviços cresceu de 24 milhões de dólares em 2023 para 619 milhões de dólares em 2024, e depois para 410 milhões de dólares em 2025, representando 56% do volume total das exchanges no período. Essas movimentações financeiras foram rastreadas até indivíduos sancionados, como o empresário Babak Zanjani e Sa’id Ahmad Muhammad al-Jamal, um financiador iemenita que apoia os Houthis, destacando a sofisticação das táticas de evasão.

Além disso, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA designou facilitadores financeiros iranianos e suas redes de empresas de fachada que coordenavam transações de criptomoedas em benefício da Força Quds da IRGC e do Ministério da Defesa do Irã. Essa rede facilitou mais de 100 milhões de dólares em compras de criptoativos relacionadas a vendas de petróleo entre 2023 e 2025, com entradas totais de 600 milhões de dólares para a rede.

Bitcoin como refúgio e ferramenta de resistência

Em meio a protestos e instabilidade política, os cidadãos iranianos têm recorrido ao Bitcoin e outras criptomoedas como um escudo contra a incerteza econômica. A Chainalysis observou uma mudança notável no comportamento on-chain, com um aumento significativo nas retiradas de Bitcoin durante os movimentos de protesto, comparado aos períodos anteriores.

Esta tendência reflete uma resposta lógica à rápida depreciação do rial iraniano, que se tornou praticamente sem valor frente a moedas fortes. Para muitos iranianos, as criptomoedas representam não apenas uma forma de preservar o capital, mas também um elemento de resistência, oferecendo liquidez e opções em um ambiente econômico cada vez mais restrito.

Apesar das tentativas do governo de controlar o fluxo de criptoativos, com restrições à conversão de fiat para cripto e proibições de saques em exchanges, a demanda por esses ativos digitais persiste. Este cenário demonstra a resiliência da população em buscar autonomia financeira e a crescente importância das criptomoedas como um sistema financeiro alternativo em economias sob pressão.

O panorama do ecossistema cripto iraniano, com sua valuation expressiva e o uso tanto pelo Estado quanto pela população, sublinha a complexidade de se aplicar sanções em um mundo financeiro cada vez mais digitalizado. A capacidade de rastrear essas transações através de análises de blockchain, conforme demonstrado pela Chainalysis e TRM Labs, será crucial para as autoridades globais em seus esforços contínuos de fiscalização e combate à evasão.