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Há uma crise no mercado mundial de videogames. Gamers e mineradores de criptomoedas disputam com intensidade cada vez maior os preciosos GPUs (Unidade de Processamento Gráfico), que acelera o processamento de informações no núcleo dos computadores, tornando a experiência dos videojogos mais aprazível. Mas essas unidades também são cobiçadas por quem deseja acelerar o processo de mineração de cripto em suas máquinas.

Quando a Nvidia lançou o GeForce RTX 3080, um modelo top de linha, ele rapidamente se esgotou. Muitos gamers reclamam que os mineradores estão adquirindo toda a produção, não havendo disponibilidade no mercado para seu público-alvo primário. De fato, em meio à pandemia, há uma escassez mundial de GPUs novas e antigas no momento.

Analistas do mercado de GPU avaliam que os mineradores causaram um ‘estrago’ de aproximadamente US$ 20 bilhões na indústria, gerando demanda inesperada pelos os componentes-chave para as GPUs – os microchips – que estão escassos no momento. Alguns fabricantes resolveram reagir. A Nvidia anunciou dia 19 de que mudaria algumas versões futuras de suas GPUs, para que sejam menos atraentes para os mineradores de criptomoedas. Contudo, as novas unidades não chegarão tão cedo aos consumidores.

A revista Forbes entrevistou mineradores como Shaneel Mohandas, de 22 anos, um profissional de TI que tem 7 GPUs funcionando em um quarto escuro em Durban, na África do Sul. Cada unidade é dedicada à produção de criptomoedas, como bitcoin e ethereum. Para ele, mesmo GPUs antigos podem chegar a 2,5 vezes seu preço original devido à escassez. “É tudo muito caro. E isso está deixando os gamers loucos”, conta.

A mineração de Mohandas, como a de milhões de pessoas em todo mundo, faz com que receba frações de bitcoin como uma “recompensa” por criar blocos de transações verificadas que são adicionadas ao blockchain.

Numa sociedade cada vez mais digitalizada, a disputa entre gamers e mineradores de criptomoedas pelos aparelhos de alta tecnologia atinge em cheio um mercado anual estimado em meio trilhão de dólares. Os microchips alimentam sistemas eletrônicos de aviões, automóveis, smartphones, além de, claro, GPUs. O fato é que eles são quase onipresentes, presentes em eletrodomésticos como geladeiras e cafeteiras.

Para os mineradores, a explicação dessa busca alucinada por processadores mais potentes é bem simples. “Todo mundo quer construir sua própria máquina. É uma impressora de dinheiro”, resume o minerador Aniel Varma, 36 anos, de Orlando, Flórida.

A pandemia forçou muita gente a ficar em casa e criou uma onda de desemprego. Com isso, gamers passam mais tempo na frente de seus computadores e surgiram novos mineradores buscando fontes de renda alternativas.

A maioria dos chips são fabricados fora dos Estados Unidos, como a Taiwan Semiconductor e a Samsung. Essas cadeias de suprimentos globais tiveram demandas pressionadas pela pandemia, mas acabaram  interrompendo a produção por fatores como fechamentos de fábricas e de fronteiras. Some-se a isso as tensões entre Taiwan e a China continental, que nunca reconheceu seu direito de existir como um país soberano.

A escassez de chips deixou os governos mundiais preocupados. Em fevereiro, o presidente Joe Biden, dos Estados Unidos,  prometeu injetar quase US$ 40 bilhões na indústria para impulsionar a fabricação de semicondutores no seu país. Na mesma época, ministros da União Europeia discutiram um pacote de US$ 60 bilhões destinado ao mesmo objetivo para suprir a demanda de 27 países.

A guerra pela capacidade de processamento não tem data para acabar. “Acho que o que você tem é uma tempestade perfeita de coisas”, avalia Matthew Stafford, editor da Tom’s Hardware, um conceituado site  especializada em Tecnologia da Informação. “As empresas globais esperam estabilidade. E isso é tudo menos estabilidade.”

Fabricantes não imaginavam quadro atual

O aumento nas vendas fez o preço das ações da Nvidia subir mais de 67% no ano passado. Mas o momento  atual não era quadro que seus fundadores vislumbravam quando criaram a empresa em 1993.

Nas últimas três décadas, a Nvidia e seus concorrentes têm feito GPUs para gamers e pessoas que procuram melhorar seus PCs. Jensen Huang, co-fundador e CEO da Nvidia, tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 14,2 bilhões e sua empresa tem uma avaliação de mercado de quase US$ 370 bilhões. A rival mais próxima, AMD, vale perto de US$ 100 bilhões.

Durante anos os gamers eram os principais compradores de GPUs, até que o boom das criptomoedas começou, há cerca de uma década. Abriu-se, então, um novo mercado.

O imenso poder de computação dos GPUs, que realizam trilhões de cálculos a cada segundo, foi aplicado a cripto mineração, onde um computador resolve uma série de equações complexas, produzindo novas porções das criptomoedas que podem ser trocadas por dinheiro em exchanges, como a Coinbase.

A crescente demanda dos mineradores apanhou de surpresa a Nvidia e a AMD, que ainda não conseguem precisar qual porcentagem de suas vendas vem das criptomoedas.

“Nem eles sabem, provavelmente ”, diz Stacy Rasgon, analista da Bernstein. Estima-se que o número pode chegar a 10% das vendas, gerando perto de meio bilhão de dólares anualmente. A tendência é que disputa pelas peças provavelmente só piore, pois os preços das criptomoedas dispararam entre 2020 e 2021, aumentando o apelo à mineração.

Contudo, fabricantes de GPUs não querem os mineradores como seus principais clientes. E têm motivos pra isso. Ocorreu uma explosão semelhante na demanda dos mineradores em 2017 e 2018, num momento de alta nos preços das criptomoedas.

Quando essa ‘bolha’ estourou, eles inundaram o mercado com GPUs de segunda mão, forçando uma redução nos preços e suprimindo a demanda por novos modelos. O prejuízo ficou evidente quando a Nvidia apresentou em seu primeiro trimestre fiscal de 2019 queda de um terço na receita do ano anterior, apenas US$ 2,2 bilhões, situação rara para a empresa.

Os fabricantes de GPUs não estão apenas lidando com uma crise de oferta, mas também com a forte demanda de um grupo de consumidores que pode desaparecer a qualquer segundo se os preços de criptomoedas despencarem novamente. A conta é fácil, mesmo que o fornecimento melhore e as empresas integrem melhor a mineração em suas previsões, podem ter um excesso de produtos, enfraquecendo os preços.

Enquanto isso, o mercado de peças usadas fervilha. Justin Kelly, 42 anos, conhece os dois lado da moeda. Ex-gamer que se tornou minerador, ele comprou várias GPUs para jogar e depois começou com a mineração de bitcoin por volta de 2013. Lembra que pagou US$ 10 mil nas placas mais recentes da Nvidia, lançadas no ano passado, suficiente para produzir até US$ 600 em criptomoedas por dia. Hoje diz que gostaria de ter comprado mais. “Eu teria gasto mais, mas não consegui fazer isso ”, diz Kelly, que trabalha como consultor de TI em Seattle.

O motivo é que as vendas tinham um limite estrito de uma GPU por pedido.

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