A firma de capital de risco Fifty Years, sediada em São Francisco, está redefinindo a trajetória de inovações científicas promissoras, muitas das quais nunca sairiam dos laboratórios. Por meio de um programa acelerador inovador, a empresa capacita cientistas e engenheiros a se tornarem fundadores de startups, preenchendo uma lacuna crítica entre a pesquisa acadêmica e o mercado global.

Historicamente, a transição de uma descoberta científica para um produto comercializável é um processo complexo e repleto de desafios, frequentemente mais árduo do que o caminho tradicional do empreendedorismo. Seth Bannon, sócio-fundador da Fifty Years, observa que os próprios cientistas que criam a tecnologia raramente a transformam em negócios. Essa desconexão impede que inovações cruciais cheguem à sociedade, especialmente aquelas classificadas como “deep tech” – tecnologias baseadas em ciência e engenharia de ponta que visam resolver problemas globais complexos.

No Brasil, por exemplo, apesar do grande número de startups de tecnologia profunda, a captação de financiamento privado ainda é um gargalo, com muitas dependendo de recursos públicos para avançar. Os desafios da pesquisa científica no país, como a falta de investimentos e a dificuldade de transformar resultados em produtos, são notórios. É nesse cenário que iniciativas como a da Fifty Years ganham relevância global, mostrando um caminho para superar essas barreiras.

O programa 5050 e a transição do cientista ao fundador

O programa 5050, uma iniciativa gratuita de 13 semanas da Fifty Years, foi concebido para guiar cientistas e engenheiros no processo de criação de startups de deep tech. Desde sua criação, ele já impulsionou o lançamento de uma centena de negócios, muitos dos quais não existiriam sem esse suporte. O foco é ajudar os participantes a validar suas ideias e determinar a viabilidade comercial de suas pesquisas.

Um exemplo notável é Niccolo Cymbalist, engenheiro que, durante sua licença paternidade em 2024, descobriu o 5050. Sem experiência prévia em negócios, ele lançou a Clippership, uma startup que desenvolve navios de carga autônomos movidos a vento, com a primeira embarcação em construção na Holanda. Outras empresas que se destacam incluem a Huminly, que utiliza enzimas para reciclar infinitamente tecidos, e a Plasmidsaurus, líder em sequenciamento de DNA ultrarrápido.

O fundador da Plasmidsaurus, um pós-doutorando da Caltech, ingressou no programa com uma ideia inicial para um produto médico. No entanto, a equipe do 5050 o ajudou a perceber que outra de suas invenções — uma tecnologia desenvolvida para acelerar sua própria pesquisa — estava pronta para o mercado. A Plasmidsaurus rapidamente alcançou um faturamento anual de US$ 60 milhões, sendo lucrativa desde o início e tornando-se um nome de prestígio na biologia, conforme relatado pela Fast Company.

O impacto da deep tech e o futuro da inovação

As startups de deep tech, apoiadas por firmas como a Fifty Years, estão na vanguarda da resolução de problemas monumentais, desde as mudanças climáticas até a cura de doenças. Elas representam um motor de inovação tecnológica global, atraindo investimentos significativos em setores como inteligência artificial, biotecnologia e computação quântica. Este modelo de capital de risco não apenas fornece financiamento, mas também a mentoria e o ecossistema necessários para que a ciência de ponta floresça em empreendimentos de sucesso.

A colaboração entre a academia e o setor de venture capital é crucial para que essas inovações transponham as barreiras do laboratório. Ao capacitar cientistas e engenheiros com as ferramentas e a mentalidade empreendedora, a Fifty Years está acelerando a chegada de soluções disruptivas ao mercado, com potencial de transformar indústrias inteiras e impactar positivamente a humanidade em escala civilizacional.

O sucesso dessas iniciativas demonstra um novo paradigma na comercialização de inovações científicas, onde o capital paciente e o suporte estratégico são tão importantes quanto a própria descoberta. Ao invés de as invenções ficarem restritas ao ambiente acadêmico, elas agora têm um caminho estruturado para se tornarem negócios viáveis, promovendo um futuro onde a ciência e o empreendedorismo andam de mãos dadas para enfrentar os grandes desafios do nosso tempo.