Em uma das maiores ações de fiscalização já realizadas, a Tether, a empresa por trás da maior stablecoin do mundo, o USDT, congelou aproximadamente US$182 milhões em USDT em cinco endereços da rede Tron. A medida, executada em 11 de janeiro de 2026, marca um momento crucial na interseção entre criptoativos e o combate a atividades ilícitas, conforme detalhado por diversas fontes, incluindo o portal The Block.

A decisão da Tether foi tomada em cooperação com autoridades de aplicação da lei dos Estados Unidos, incluindo o Departamento de Justiça (DOJ) e o Federal Bureau of Investigation (FBI). Embora as razões específicas para o congelamento não tenham sido divulgadas publicamente pela empresa, tais ações geralmente decorrem de investigações relacionadas a golpes, hacks, evasão de sanções ou outras utilizações ilegais de criptomoedas.

Cada uma das carteiras afetadas continha entre US$12 milhões e US$50 milhões em USDT, evidenciando a magnitude da operação. Este evento ressalta a capacidade centralizada dos emissores de stablecoins de intervir e bloquear fundos, um poder que gera debates contínuos sobre a natureza descentralizada do ecossistema cripto.

Ações da Tether e o panorama regulatório

A Tether mantém chaves administrativas especiais em seus contratos inteligentes de USDT, que permitem à empresa congelar tokens no nível do emissor. Essa funcionalidade é essencial para que os emissores de stablecoins lastreadas em fiduciárias cumpram solicitações legais e regulamentações de combate à lavagem de dinheiro (AML).

Este não é um incidente isolado. Entre 2023 e 2025, a Tether congelou mais de US$3 bilhões em ativos de mais de 7.000 endereços, demonstrando um esforço contínuo e em larga escala para combater o uso ilícito de seus tokens. A empresa implementou uma política voluntária de congelamento de carteiras em dezembro de 2023 para cumprir as sanções do Tesouro dos EUA.

A crescente predominância das stablecoins em transações ilícitas, que, segundo dados da Chainalysis, representaram 84% de todo o volume de transações ilícitas até o final de 2025, torna a postura proativa da Tether cada vez mais relevante. A colaboração com agências como o DOJ e o FBI é um pilar dessa estratégia, visando estabelecer um novo padrão de segurança no espaço cripto.

Centralização das stablecoins versus descentralização

O congelamento de US$182 milhões em USDT reacende o debate fundamental sobre a centralização das stablecoins. Enquanto criptomoedas como o Bitcoin são projetadas para serem resistentes à censura e descentralizadas, as stablecoins, que representam uma parte significativa do mercado (cerca de 60% com o USDT), operam com um grau considerável de controle centralizado.

Críticos argumentam que o poder de congelamento dos emissores de stablecoins contraria o espírito da descentralização cripto, assemelhando-se mais a um sistema financeiro tradicional. No entanto, defensores da medida apontam que essa capacidade é crucial para a conformidade regulatória e a proteção dos usuários contra fraudes e atividades criminosas, contribuindo para a legitimidade e a adoção mais ampla dos ativos digitais.

Apesar das preocupações com a centralização, a capitalização de mercado do USDT permanece robusta, refletindo a confiança do mercado em sua estabilidade e nas medidas de segurança implementadas pela Tether. A discussão sobre o equilíbrio entre a conformidade regulatória e os princípios de descentralização continuará a moldar o futuro do mercado de stablecoins, impulsionando potencialmente o desenvolvimento de alternativas descentralizadas, embora o controle centralizado deva permanecer um requisito regulatório para grandes sistemas lastreados em moedas fiduciárias.