Uma onda de empresas chinesas está redefinindo o cenário econômico mundial, impulsionando sua expansão global com investimentos substanciais e estratégias ambiciosas. Diante da intensa competição doméstica e da busca por novas oportunidades de crescimento, a frase “chu hai” (ir para o exterior) tornou-se um grito de guerra para corporações que agora olham além de suas fronteiras.
Este movimento não é apenas uma reação a um mercado interno em desaceleração, mas uma parte calculada da estratégia de Pequim para fortalecer a competitividade global de suas empresas e impulsionar o desenvolvimento econômico. A China, que por décadas foi um polo para o investimento estrangeiro, consolidou sua transição para um exportador de capital, com um investimento direto no exterior (IDE) que atingiu US$ 192,2 bilhões em 2024, um aumento de 8,4% em relação ao ano anterior.
Essa expansão se manifesta em diversos setores, desde a tecnologia de ponta até bens de consumo e infraestrutura, com um foco crescente em economias emergentes. A presença de empresas chinesas em 190 países e regiões, com cerca de 52 mil delas estabelecidas no exterior até o final de 2024, demonstra a escala desse fenômeno.
Setores-chave e o dinamismo da internacionalização chinesa
A nova geração de empresas chinesas está deixando sua marca em indústrias estratégicas. O setor automotivo é um dos mais proeminentes, com marcas como BYD e Chery ganhando terreno significativo em mercados internacionais. A BYD, por exemplo, tornou-se a segunda marca de veículos elétricos mais vendida do mundo no ano passado, logo atrás da Tesla. Outras, como SAIC (com a MG) e o Grupo Geely (que controla Volvo e Lynk & Co), também expandem sua influência globalmente.
Além dos veículos, a tecnologia e o e-commerce são motores cruciais dessa expansão. Empresas como Shein, Temu e TikTok Shop estão se tornando favoritas globais dos consumidores, alcançando um status de embaixadoras culturais. No segmento de eletrônicos de consumo, gigantes como Huawei, Xiaomi e Lenovo continuam a aumentar sua influência, impulsionando um crescimento de 61% no poder de marca de dispositivos inteligentes em 2023. Até mesmo no nicho de robôs humanoides, fabricantes chineses como AgiBot e Unitree lideraram o mercado global em 2025, evidenciando a capacidade de inovação do país.
Estratégias e desafios no cenário global
A estratégia de internacionalização chinesa é multifacetada. Ela envolve um planejamento de longo prazo focado em setores como tecnologia, energia e infraestrutura. A Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), lançada em 2013, desempenha um papel fundamental, com mais de US$ 1 trilhão investidos em projetos de infraestrutura e conectividade em 148 países, especialmente na Ásia, África e América Latina. Em 2024, os investimentos diretos nos países participantes da BRI aumentaram mais de 20%.
No entanto, essa expansão não está isenta de desafios. Tensões comerciais com os Estados Unidos e novas regulamentações de investimento em outros países representam obstáculos significativos. A necessidade de localização jurídica e regulatória, bem como a adaptação cultural, são cruciais para o sucesso em mercados diversos. Para superar essas barreiras, empresas chinesas estão adotando uma abordagem mais diplomática, valorizando parcerias locais e o respeito às legislações regionais.
O Brasil, por exemplo, tornou-se um destino promissor para a expansão chinesa. Gigantes de setores como energia, tecnologia, automotivo e e-commerce já ocupam mais de 300 mil metros quadrados em escritórios e centros logísticos no país, com empresas como Meituan e Mixue planejando investimentos significativos. Essa presença reforça a importância dos mercados do Sul Global para a estratégia de internacionalização da China.
A expansão global das empresas chinesas é um fenômeno complexo e em constante evolução. Embora enfrentem desafios geopolíticos e regulatórios, a determinação em buscar crescimento e inovação fora de suas fronteiras continua a impulsionar essa nova geração de corporações. A capacidade de adaptação, a busca por tecnologia avançada e o investimento estratégico em mercados emergentes são fatores que prometem manter a China como um player central na reconfiguração da economia global nos próximos anos.












