A ascensão das moedas digitais, de stablecoins a CBDCs, transforma o panorama financeiro global. A dominância do dólar agora dependerá crucialmente da infraestrutura digital que movimentará o valor.
Duas vezes no último século, os alicerces das finanças globais se moveram sob pressão insustentável. Hoje, assistimos a outro movimento, impulsionado pela ascensão de stablecoins, depósitos tokenizados e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Esta mudança, porém, não se desenrola por meio de tratados ou políticas cambiais tradicionais.
Desta vez, a questão crucial não é mais qual banco central emite o ativo âncora do sistema monetário global. Conforme apontado pelo portal www.project-syndicate.org, o foco agora recai sobre a infraestrutura pela qual o valor circula, um desafio direto à manutenção da hegemonia da moeda estadunidense.
A dominância do dólar e a corrida pela infraestrutura digital
Para os Estados Unidos, preservar a liderança monetária global exige uma modernização urgente da infraestrutura de pagamentos, tanto interna quanto transfronteiriça, visando a interoperabilidade. A falta de padrões comuns pode fragmentar o sistema, criando blocos incompatíveis e dificultando a fluidez do capital.
O Federal Reserve, por exemplo, tem explorado ativamente a viabilidade de um dólar digital (CBDC) para garantir que a moeda continue relevante na era digital. Segundo um relatório de 2022 sobre o Dólar Digital, a inovação em pagamentos é essencial para manter a competitividade e a segurança do sistema financeiro. Além disso, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) tem destacado a importância de plataformas e infraestruturas que permitam a circulação eficiente de moedas digitais entre diferentes jurisdições, evitando atritos e custos elevados.
Stablecoins, como o USDT e o USDC, e depósitos tokenizados já operam em redes blockchain, oferecendo velocidade e custos reduzidos. Contudo, a ausência de uma estrutura regulatória e tecnológica unificada pode limitar seu potencial e criar riscos sistêmicos, exigindo atenção dos reguladores para garantir a estabilidade financeira global e a dominância do dólar.
Implicações para o sistema monetário global
A forma como as infraestruturas digitais são desenhadas pode tanto sustentar um sistema monetário aberto quanto consolidar um arranjo bipolar, com blocos competindo com padrões incompatíveis. Essa dicotomia tem vastas implicações para o comércio internacional, os investimentos e a estabilidade financeira global.
Países como a China já avançaram significativamente com o e-CNY, sua moeda digital de banco central, explorando seu uso em transações domésticas e, potencialmente, transfronteiriças. Essa iniciativa, conforme analisado por diversos veículos, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2023, levanta questões sobre a futura composição das reservas cambiais e a influência geopolítica. Se os Estados Unidos não construírem os “trilhos” digitais que permitam ao dólar fluir com a mesma eficiência, o risco de perder terreno para outras moedas digitais se torna real.
A interoperabilidade é a chave para um sistema global coeso. Sem ela, empresas e consumidores podem enfrentar barreiras significativas, desde custos de conversão até a incapacidade de realizar pagamentos em diferentes redes. Isso não apenas prejudicaria a eficiência econômica, mas também poderia levar a uma fragmentação do comércio e das finanças, com consequências imprevisíveis para a ordem econômica mundial.
A sobrevivência da dominância do dólar na era digital não é uma certeza, mas uma corrida estratégica. A primazia não será mais definida pela emissão de um ativo físico, mas pela capacidade de inovar e construir a infraestrutura digital que permita ao dólar continuar sendo a moeda preferencial para transações globais. A inação ou a incapacidade de adaptar-se a essa nova realidade tecnológica pode custar caro, redefinindo as bases do poder econômico e geopolítico por décadas.











