A etiqueta à mesa de esperar que todos sejam servidos antes de começar a comer, um pilar da boa educação em jantares e restaurantes, pode estar gerando um desconforto social muito maior do que se imagina, e principalmente, desnecessário. Uma nova pesquisa sugere que a ansiedade de quebrar essa regra de jantar é sentida mais intensamente por quem espera do que por quem observa, revelando uma lacuna entre a percepção individual e a expectativa coletiva.
Essa dinâmica, frequentemente observada em situações sociais, foi o foco de um estudo detalhado coautoria da Bayes Business School, cujos resultados foram divulgados pela ScienceDaily em 12 de janeiro de 2026. Os pesquisadores investigaram a pressão que as pessoas sentem para aderir a essa norma, mesmo quando seus pratos chegam primeiro, e como essa pressão impacta a experiência gastronômica de todos.
O estudo destaca que a polidez de aguardar pode, paradoxalmente, diminuir o prazer da refeição, especialmente quando a qualidade do alimento, como a temperatura, é comprometida pela espera. Compreender essa discrepância entre o que sentimos e o que os outros realmente pensam é crucial para repensar certas convenções sociais e tornar os momentos à mesa mais agradáveis para todos.
Por que esperar para comer nos deixa tão desconfortáveis
A equipe de pesquisa, liderada por Irene Scopelliti, Professora de Marketing e Ciência Comportamental na Bayes Business School, e Janina Steinmetz, Professora de Marketing na Bayes, em conjunto com a Dra. Anna Paley da Tilburg School of Economics and Management, conduziu seis experimentos para analisar a diferença entre a autoavaliação do comportamento e as expectativas sobre os outros. Participantes imaginaram estar em um jantar, ora recebendo o prato primeiro, ora esperando pelo companheiro.
Os resultados revelaram uma “lacuna entre o eu e o outro” evidente: aqueles que imaginavam ser servidos primeiro sentiam uma obrigação significativamente maior de esperar do que seus companheiros esperavam que eles sentissem. Essa percepção persiste mesmo quando há um convite explícito para começar a comer, indicando uma profunda internalização da norma social que transcende a lógica da situação.
A Professora Steinmetz explica que a decisão de quando iniciar a refeição na companhia de outras pessoas é um dilema social comum. “A adesão à norma dita que esperemos até que toda a comida seja servida antes de começar, e desconsiderá-la parece-nos rude e descortês”, afirma. “Surpreendentemente, esse sentimento mal muda mesmo quando outra pessoa nos pede explicitamente para prosseguir.
Isso ocorre porque as pessoas têm maior acesso aos seus próprios sentimentos internos — como parecer atencioso ou evitar o desconforto social — do que às experiências psicológicas dos outros.
Reduzindo a tensão à mesa: o papel de restaurantes e anfitriões
A pesquisa sugere que restaurantes e anfitriões de jantares podem aprimorar a experiência gastronômica e diminuir o desconforto social garantindo que todos à mesa sejam servidos simultaneamente. Esta simples medida eliminaria a situação em que um comensal se sente compelido a esperar, muitas vezes com a comida esfriando e perdendo sua qualidade.
A Professora Scopelliti enfatiza que a questão vai além da mera polidez, tocando em um aspecto de “acesso psicológico”. “Podemos sentir nosso próprio desconforto interno, culpa e os sentimentos positivos de parecer atencioso, mas não podemos acessar totalmente o que os outros estão experimentando internamente”, pontua. Isso nos leva a superestimar a importância da nossa espera para os demais.
Em vez de focar na adesão rigorosa a uma regra que causa mais ansiedade do que benefício, a conscientização sobre essa lacuna de percepção pode nos libertar de uma pressão desnecessária. Reconhecer que, na maioria das vezes, a preocupação está mais em nossa cabeça do que na dos outros pode tornar as refeições compartilhadas momentos de genuíno prazer e conexão, e não de ansiedade social.
Em suma, a regra de esperar para comer, embora bem-intencionada, é uma fonte de desconforto autoinfligido. Ao invés de priorizar uma etiqueta que muitas vezes se baseia em uma leitura equivocada das expectativas alheias, talvez seja hora de considerar uma abordagem mais flexível. A busca por refeições mais agradáveis e menos tensas passa por entender a psicologia por trás de nossas interações sociais, permitindo que a comida seja desfrutada no momento certo, por todos.












