A EQI Investimentos, uma das maiores plataformas de assessoria do país, sinalizou sua ambição de se transformar em uma instituição financeira completa. A manobra estratégica, que se desenrolou nos últimos anos com a aquisição de uma DTVM e o distanciamento gradual da XP Investimentos, reflete um movimento de mercado mais amplo e a busca por novas avenidas de crescimento e rentabilidade.

Essa transição não é um capricho, mas uma resposta calculada à dinâmica competitiva do setor e à necessidade de verticalizar operações. Ao mirar a licença para operar como banco ou financeira, a EQI se posiciona para controlar mais elos da cadeia de valor, desde a originação de produtos até a gestão de recursos e a oferta de crédito, uma mudança profunda em relação ao seu modelo original de distribuição de produtos de terceiros.

O cenário atual do mercado financeiro brasileiro, com a consolidação de grandes players e a emergência de fintechs, exige que os participantes reavaliem seus modelos de negócio. Para a EQI, que construiu sua reputação na assessoria, a expansão para se tornar uma financeira representa uma evolução natural e, talvez, inevitável para manter sua relevância e competitividade a longo prazo.

A verticalização como imperativo estratégico

A decisão da EQI de se tornar uma financeira é um exemplo claro da tendência de verticalização no mercado de capitais. Historicamente, assessorias como a EQI atuavam como intermediárias, conectando clientes a produtos de outras instituições. Contudo, a margem de lucro nesse modelo é espremida pela forte concorrência e pela dependência das comissões pagas pelos emissores. Ao obter licenças que permitem a criação e gestão de produtos próprios, a EQI pode capturar uma fatia maior da receita gerada por seus clientes. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), o volume de emissões no mercado de capitais tem crescido, indicando um ambiente propício para instituições que podem atuar em múltiplas frentes. A verticalização permite à EQI não apenas vender produtos, mas também originá-los, oferecendo desde fundos de investimento próprios até, no futuro, linhas de crédito e soluções de banking.

Essa estratégia também fortalece o relacionamento com o cliente. Ao centralizar mais serviços sob a marca EQI, a empresa pode oferecer uma experiência mais integrada e personalizada. Em vez de direcionar o cliente para diferentes plataformas ou bancos para cada necessidade, a EQI busca ser o one-stop shop para as demandas financeiras. Em entrevista recente à imprensa especializada, o CEO da EQI, Juliano Custódio, destacou a importância de ter controle sobre a jornada do cliente, desde a oferta de produtos até o pós-venda, como um diferencial competitivo crucial em um mercado cada vez mais comoditizado.

O futuro da EQI e o novo panorama competitivo

A transformação da EQI em uma financeira completa altera significativamente seu posicionamento no panorama competitivo. Deixa de ser “apenas” uma assessoria para se equiparar a players como a XP e o BTG Pactual, que já operam com estruturas bancárias robustas. Essa mudança exige não só um robusto investimento em tecnologia e infraestrutura, mas também uma adaptação cultural e regulatória complexa. A obtenção de licenças bancárias implica um nível de escrutínio e capitalização muito maior, com a supervisão rigorosa do Banco Central do Brasil. Dados da própria autoridade monetária mostram que o número de instituições financeiras no país tem se mantido estável, mas a complexidade regulatória para novas entrantes é alta.

Além do desafio regulatório, a EQI enfrentará uma concorrência direta com grandes bancos e fintechs estabelecidas. No entanto, sua base de clientes já consolidada e a expertise em assessoria de investimentos podem ser um trunfo valioso. A capacidade de oferecer um serviço consultivo aliado a uma plataforma de produtos mais completa pode atrair clientes que buscam tanto a personalização quanto a amplitude de soluções. O movimento da EQI reflete uma tendência de mercado em que a distinção entre assessoria, corretora e banco se torna cada vez mais tênue, forçando todos os participantes a expandir suas fronteiras para sobreviver e prosperar.

A ambição da EQI de se tornar uma financeira é um passo audacioso que reflete a maturação do mercado de investimentos no Brasil. Ao buscar a verticalização e o controle integral da jornada do cliente, a empresa não apenas visa maior rentabilidade, mas também se prepara para um futuro onde a diferenciação virá da amplitude e integração dos serviços. Os próximos anos serão cruciais para observar como essa guinada estratégica se traduzirá em resultados e qual será o impacto no já efervescente cenário financeiro nacional, moldando o papel das plataformas de investimento.