Uma mudança significativa na forma como o governo federal dos Estados Unidos financia startups está redefinindo o cenário para empreendedores, com o Tio Sam agora buscando participação acionária em vez de apenas conceder subsídios. Essa nova abordagem, exemplificada por um recente investimento de US$ 150 milhões em uma startup de semicondutores, levanta incertezas e exige que fundadores recalculem suas estratégias de captação de capital.
Historicamente, o apoio federal a pesquisa e desenvolvimento vinha por meio de subvenções não dilutivas e prêmios como os programas Small Business Innovation Research (SBIR) e Small Business Technology Transfer (STTR), que não exigiam concessões de capital. Essa estrutura permitia que empresas em estágio inicial validassem suas ideias com apoio governamental, atraindo investidores privados posteriormente sem diluição inicial para os fundadores.
A transição para um modelo de investimento de capital, onde o governo se torna acionista, representa uma alteração fundamental nesse cálculo. A iniciativa tem sido vista como uma mudança relativamente silenciosa, mas com o potencial de gerar grandes ondas no ecossistema de inovação, conforme reportado pela Fast Company.
Os novos termos do jogo: incertezas e desafios
Para os fundadores, a transição para o modelo de participação acionária federal cria uma genuína incerteza. Ainda não há regras claras sobre o que a propriedade governamental em uma startup significa, como quanta participação acionária pode ser tomada ou como a diluição funcionaria ao longo do tempo.
Questões como quando o governo espera um retorno e quem gerenciaria essas posições permanecem sem resposta. Startups já se esforçam para manter suas tabelas de capitalização limpas o suficiente para investimentos privados. Adicionar uma agência federal ao quadro introduz uma nova camada de complexidade e atrito, o que pode afastar investidores experientes.
A situação é agravada pela expiração dos programas SBIR e STTR em 30 de setembro de 2025, que historicamente foram a espinha dorsal do apoio federal não dilutivo a empresas em estágio inicial. Com as vias tradicionais de subvenção congeladas e a participação acionária emergindo como o novo modelo, os fundadores enfrentam uma incerteza sem precedentes sobre as estruturas de financiamento federal. Esses programas distribuíam aproximadamente US$ 4,73 bilhões anualmente.
Aprendizados do passado e o caminho à frente
A história oferece lições valiosas. Há vinte anos, o estado do Texas lançou o Fundo de Tecnologia Emergente com o objetivo de apoiar empresas de tecnologia de alto crescimento através de um modelo de capital de risco. O fundo enfrentou problemas estruturais, como cláusulas de não diluição que impediam a justa diluição ao lado de outros investidores, o que acabou minando o crescimento de suas empresas de portfólio.
Novos investidores recusavam-se a financiar essas empresas porque o risco não era compartilhado de forma justa. A lição é clara: o capital público pode ser valioso, mas se ignorar a dinâmica do mercado e as expectativas dos investidores, pode sufocar o próprio crescimento que pretende catalisar.
O governo dos EUA, através de iniciativas como o Foreign Policy Research Institute, está explorando o conceito de um “Estado Portfólio”, onde o capital público adquire participações minoritárias para garantir cadeias de suprimentos e moldar resultados de mercado. Para que essa abordagem seja bem-sucedida, é fundamental que haja clareza.
Se o governo federal prosseguir com investimentos de capital, deve estabelecer padrões claros. É fundamental definir como as posições são estruturadas, quem as detém, quando a liquidez é esperada e como o relacionamento evolui à medida que as empresas captam capital. Essas decisões não podem ser improvisadas, pois determinarão se investidores privados se engajam ou se afastam, conforme discutido por instituições como o Institute for Business in Global Society.
Empreendedores não devem necessariamente evitar o financiamento federal se a participação acionária for introduzida, mas precisam abordá-lo com expectativas claras sobre as implicações de longo prazo. Há uma oportunidade se o governo estabelecer regras transparentes e compreensíveis para todos os envolvidos, garantindo que o objetivo de fomentar a inovação não seja comprometido por incertezas regulatórias. A clareza será a chave para que o investimento federal em startups realmente impulsione o crescimento, em vez de criar barreiras.










