A plataforma mBridge, uma iniciativa de moeda digital de banco central (CBDC) transfronteiriça liderada pela China, registrou um volume de transações superior a US$ 55 bilhões. Este marco notável, conforme noticiado pela Reuters e destacado pelo site The Block, representa um aumento de 2.500 vezes desde 2022 e sinaliza um movimento estratégico para remodelar os sistemas de pagamentos globais.
O projeto, que envolveu mais de 4.000 transações entre bancos centrais, busca oferecer uma alternativa eficiente e de baixo custo aos modelos de pagamento internacionais existentes, que frequentemente dependem do dólar americano. A ascensão da plataforma mBridge reflete uma ambição crescente de diversificar o panorama financeiro global, reduzindo a dependência de infraestruturas ocidentais tradicionais.
Lançado em 2021, o mBridge é uma colaboração entre o Centro de Inovação do Banco de Compensações Internacionais (BIS), o Instituto de Moeda Digital do Banco Popular da China, a Autoridade Monetária de Hong Kong, o Banco da Tailândia e o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita juntou-se como participante pleno em junho de 2024, ampliando a abrangência e a influência do projeto.
A ascensão do yuan digital e o futuro dos pagamentos
A predominância do yuan digital (e-CNY) é um fator central para o sucesso da plataforma mBridge. Estima-se que a moeda digital chinesa seja responsável por cerca de 95% do volume total de transações na plataforma, tornando-a o maior projeto de CBDC em operação no mundo. Este domínio sublinha o papel da China na vanguarda da inovação em moedas digitais e na busca pela internacionalização de sua moeda.
O mBridge foi concebido para resolver ineficiências históricas nos pagamentos transfronteiriços, como altos custos, baixa velocidade e complexidades operacionais. Ao utilizar uma tecnologia de registro distribuído (DLT) personalizada, conhecida como mBridge Ledger, a plataforma permite pagamentos em tempo real e transações de câmbio peer-to-peer entre bancos centrais e comerciais participantes.
O projeto alcançou o estágio de Produto Mínimo Viável (MVP) em meados de 2024, demonstrando sua capacidade de processar pagamentos transfronteiriços com moedas digitais. Em outubro de 2024, o BIS transferiu a governança do mBridge para os bancos centrais parceiros, consolidando a autonomia e a liderança dos países participantes na evolução da plataforma.
Implicações geopolíticas e a desdolarização
A rápida expansão da plataforma mBridge não é apenas um avanço tecnológico, mas também um movimento com profundas implicações geopolíticas e geoeconômicas. A iniciativa é vista como um esforço coordenado para criar sistemas financeiros alternativos que possam contornar as infraestruturas dominadas pelo Ocidente, como o sistema SWIFT, e, assim, mitigar o risco de sanções econômicas ou pressões.
Embora analistas sugiram que o mBridge dificilmente deslocará diretamente o dólar americano como moeda de reserva global, ele pode gradualmente corroer sua dominância em corredores específicos, setores e casos de uso, especialmente no comércio de energia e commodities. Isso oferece aos países participantes maior autonomia em suas transações comerciais e financeiras.
A plataforma mBridge representa um passo significativo em direção a um sistema financeiro global mais multipolar, onde as moedas digitais lastreadas por economias locais podem desempenhar um papel maior no comércio internacional. A capacidade de realizar pagamentos mais rápidos, seguros e econômicos pode redefinir o fluxo de capital e comércio, promovendo redes financeiras mais resilientes e diversas.
O futuro do mBridge dependerá da adesão de novos participantes e da contínua evolução de sua estrutura tecnológica e de governança. No entanto, sua trajetória até o momento indica uma transformação em curso no cenário financeiro global, com a China e seus parceiros liderando a construção de uma nova arquitetura de pagamentos digitais que coexistirá e, potencialmente, desafiará o sistema centrado no dólar.










